Em 2019, o cinema viu o fim de sagas que há muito aguardavam um final

Na batalha da casa dos bilhões, em bilheterias, filmes foram emblemáticos, em 2019 — trazendo desfecho para franquias idolatradas pelos cinéfilos: por mais de 10 anos, o time de marveletes aguardou os acontecimentos de Vingadores: Ultimato que, pelas mãos de Joe e Anthony Russo, capitalizou U$ 2,8 bilhões, morno no arranque, mas impactante, ao final, pela disputa da manopla mais famosa das telas de cinema. Numa tarefa tão hercúlea, J.J. Abrams se dispôs a arrematar os 42 anos de existência da franquia Star Wars. Isso, depois de levantar mais de dois bilhões, em dólares, de renda, à frente da sétima produção da saga, em 2015. Mal chegou aos cinemas internacionais, o filme A ascensão Skywalker já rende milhões mundo afora.

Em escala menor, foi o tempo de os espectadores se despedirem do menino Soluço e do dragão Banguela, no encerramento da trilogia, com Como treinar o seu dragão 3. Na mesma linha de animação e nostalgia, o diretor Josh Cooley comandou Toy Story 4, em que a menina Bonnie e o novato e simplório brinquedo construído por ela, Forky, buscam terreno para afirmação. Com os duvidosos acabamentos artísticos de O Rei Leão eAladdin (apesar da presença de Will Smith), recauchutados, em 2019, quem nadou de braçada, em termos de encantamento, foi a patota de Maurício de Sousa, aglomerada em Turma da Mônica — Laços, de Daniel Rezende (que contou com o impecável Rodrigo Santoro, na pele do personagem Louco). Igualmente migrada do universo dos quadrinhos, Capitã Marvel, no filme homônimo, situado em 1990, sublinhou o protagonismo feminino (leia, abaixo), no filme que contrapôs a disputa entre os alienígenas skrull e os chamados kree.
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Na vida real, um embate dividiu os apaixonados da sétima arte: mal interpretado, o artífice da sétima arte, Martin Scorsese (que, no ano, via Netflix, bancou o retorno do brilho de Al Pacino, com O irlandês) atacou o efeito da infantilização e escapismo do público, pelo avanço da massificação alcançada com os filmes em torno de heróis. Dado importante, nesse debate, veio com a premiação do Leão de Ouro, conquistada no Festival de Veneza, por Coringa, a princípio, mais uma fita dedicada à reelaboração de uma figura mitológica do mundo dos quadrinhos. Cotado para o Oscar, em atuação monumental, Joaquin Phoenix despistou a chancela de arte menor, em se tratando da visão de Todd Phillips para Coringa.

Já o Oscar, apinhado de interesses pelo cinema industrial, curiosamente valorizou fitas de arte como Guerra Fria — com uma cena bem comentada do ano, a entrega da atriz Joanna Kulig para a sensual personagem Zula — apontando até indicação para a estatueta de melhor direção para o polonês Pawel Pawlikowski.
No patamar de elevada arte, conferido pelo pódio do Festival de Cannes (França), o brasileiro Bacurau brilhou, com o Prêmio do Júri. Tratando de autoridade moral imperante pelos moradores de um vilarejo no Nordeste, o filme avança em críticas quanto à gravidade da penetração de costumes e interesses estrangeiros no Brasil.
Também contrapondo abonados e desfavorecidos, opulência e miséria plena; a produção sul-coreana Parasita de Bong Joon Ho impressionou, trazendo visibilidade, a partir da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Ceifando as diferenças sociais relegadas pelo preconceito racial, Nós (título esperado, depois de o diretor Jordan Peele fazer história com o filme de horror Corra!) conquistou prêmios dados pelo conjunto de críticos afro-americanos mobilizados nos Estados Unidos. Na fita, impressionaram os talentos das atrizes Lupita Nyong´o e Shahadi Wright Joseph (a menina), numa história sobre origens e busca de identidade.

Dois filmes que desencorajam preconceitos fizeram bem na cerimônia do Oscar, em 2019: Green book: o guia contou a vida (real) do pianista Don Shirley (rendendo estatueta para Mahershalla Ali); enquanto Se a rua Beale falasse trouxe o Oscar para Regina King, numa trama de injustiças, embelezada pela trilha sonora original criada por Nicholas Britell. Numa atmosfera de reconciliação, o filme do brasileiro Fernando Meirelles Dois Papas expôs admirações constituídas entre os aclamados mortais Joseph Ratzinger e Jorge Bergoglio. Ainda na esfera das crenças, dois títulos nacionais chegaram aos cinemas, exaltando a doutrina espírita: Kardec, com inspirada presença do ator Leonardo Medeiros e Divaldo — O mensageiro da paz, em que o jovem Guilherme Lobo brilhou, encarnando Divaldo Pereira Franco.

Mulherada fez bonito

No ano de 2019, pipocaram saborosos papéis no cinema, dissecados por audaciosas intérpretes do cinema mundial: a passos do Oscar de melhor atriz (perdido), Glenn Close fez história, à frente de A esposa(foto) em que deu vida a Joan, absurdamente desconsiderada pelo autocentrado marido vencedor de um prêmio Nobel. No exterior, o brasileiro A vida invisível despontou, tendo vencido o segmento Um Certo Olhar (em Cannes).

Suburbanas e marginalizadas, na trama, duas irmãs têm sonhos tolhidos, na fita de Karim Aïnouz. Inconstante e chorosa, a protagonista criada por Olivia Colman (melhor atrize, pelo Oscar) sofreu, com as perversões e o arsenal de dissimulação visto no enredo de A favorita. Com resultados populares, as mulheres dominaram a cena em As golpistas (com strippers vingativas); Malévola: Dona do mal, em que Angelina Jolie duelou com o talento de Michelle Pfeiffer e ainda em As Panteras, da empreendedora Elizabeth Banks.

Confetes para a sétima arte

Não tem jeito: todo ano, uma rodada de celebração para o próprio cinema desponta sob a assinatura de magos da telona. Em 2019, vimos Era uma vez em… Hollywood, de Quentin Tarantino, trazer brilho para os atores Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, e Um dia de chuva em Nova York devolver os holofotes para o talento de Woody Allen, que comandou um elenco de peso associado a história desenvolvida pelo deslumbramento com o próprio cinema.
Drogas, memórias e até odores compuseram a poesia visual de Pedro Almodóvar, criador do significativo Dor e glória, estrelado por Antonio Banderas. Com invejável vitalidade, e investindo contra o imperialismo, o veterano Jean-Luc Godard investiu em Imagem e palavra, que aproveitou arquivos audiovisuais para falar da nossa era obscura, repleta de violência. Colega do mestre Godard, a belga Agnès Varda levou ao cinema (em exibição póstuma à morte dela) Varda por Agnès (foto), em que, aos 90 anos, ofertou um testamento, como artista plástica, fotógrafa e cineasta, acerca de “culturas e épocas” que vivenciou.

Construção de identidade

A representação da diversidade fez a festa, num dos sucessos de 2019: Homem-Aranha no Aranhaverso, temática também contemplada em Shazam!, a aventura leve estrelada por Zachary Levi. Voltando ao personagem reavivado por Tom Holland, Homem-Aranha: Longe de casa mostrou o contraste de vontade e de responsabilidades do desastrado herói juvenil. Com densidade, dois outros títulos impressionaram, ao tratar de rito de passagem para a vida adulta: Cafarnaum (foto), resplandecente fita de Nadine Labaki, e Tito e os pássaros, animação brasileira valorizada por pinturas a óleo. Conduzido por um documentarista de atitude, Daniel Gonçalves, o longa Meu nome é Daniel tratou de conquistas e afirmações de um artista com limitações físicas. Na luta pela arte brasiliense, Gustavo Galvão projetou em Brasília Ainda temos a imensidão da noite, sobre a resistência de músicos na cidade.

Haja violência!

O ano foi do mestre do terror literário Stephen King, que viu, numa só lapada, três adaptações de suas obras, na telona: Doutor Sono mostrou o atormentado menino presente em O iluminado, com 40 anos de distância da trama original, ao passo que It: Capítulo Dois retomou a passagem do malévolo palhaço Pennywise, transcorridos 27 anos desde seus primeiros crimes e Cemitério maldito expôs a maldade da menina Ellie e o macabro gato dela, Church. A vida dos serial killers setentistas Carlos Robledo Puch (da Argentina) e Fritz Honks (Alemanha) revelaram imagens horrendas nos filmes O anjo e O bar Luva Dourada. Imaginário perturbador igualmente habitou os filmes Border (do iraniano Ali Abbasi), estrelado por personagens deformados e animalescos, e Dogman, com o qual Marcello Fonte foi o melhor ator em Cannes, na pele do dono de pet shop que reage à torrente de bullying.

Ricardo Daehn / Correio Braziliense

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